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Kalani - Gift from Heaven

“O Kalani nada no oceano onde os peixes têm medo”, é assim que Garrett McNamara retrata o protagonista deste documentário, Kalani Lattanzi, um bodysurfer brasileiro nascido no Hawai, que desafia as maiores ondas do mundo de forma destemida e natural, apenas com o seu corpo e um par de barbatanas.

Filmado por Nuno dias ao longo de três anos, o documentário contém imagens inéditas da Nazaré e Rio de Janeiro e documenta as maiores ondas alguma vez feitas no bodysurf.

Conversámos com o Nuno, que nos contou porque decidiu fazer um filme sobre o Kalani, entre outras coisas mais.

Qual a motivação para fazer um documentário sobre o Kalani?

Um dos meus objetivos como filmmaker é contar histórias que acho que vão inspirar outras pessoas e esta foi uma que acreditei desde o início. As primeiras filmagens foram feitas em 2015 quando conheci o Kalani e o vi pela primeira vez a fazer bodysurf num dia gigante na Nazaré e fiquei deslumbrado.

Tínhamos os dois 21 anos, estávamos em fases semelhantes nas nossas carreiras, ele no bodysurf e eu como realizador de documentários, e no inverno seguinte decidimos começar a trabalhar juntos. Não sabíamos bem na altura qual seria o produto final, mas ambos sentimos uma boa conexão. Inicialmente éramos só nós os dois, mas à medida que fomos fazendo mais filmagens em sessões grandes na praia do Norte, várias pessoas do meio mostraram grande interesse em colaborar e ajudar-nos no projeto.

Este foi um dos principais fatores que me motivou muito, já não era apenas uma ideia que íamos falando, estava mesmo a concretizar-se e já não estávamos sozinhos. Tivemos oportunidade de aprender coisas novas, de entrevistar alguns dos maiores nomes do surf de ondas grandes do mundo e de ver o entusiasmo e disposição que eles demonstraram, e conseguimos filmagens exclusivas das maiores ondas já alguma vez surfadas apenas com o corpo e umas barbatanas. Tudo isto foi muito especial para mim e foi-me motivando cada vez mais para fazer este documentário.

Como começou o Kalani a fazer bodysurfing?

Desde pequeno que o Kalani teve uma forte ligação com o mar. Nasceu na ilha de Maui no Hawai, uma das principais zonas de surf do mundo e teve aí o seu primeiro contacto com o Oceano Pacífico. 

Os seus pais já praticavam surf e bodyboard e isso ajudou bastante nos seus primeiros passos. Anos mais tarde a família mudou-se para o Brasil, para a cidade de Niterói que pertence ao estado do Rio de Janeiro e que é curiosamente perto de uma das praias com as ondas mais pesadas do mundo inteiro, Itacoatiara. Foi lá que foi aprendendo a fazer bodysurf e mais importante ainda, a ler o mar e a controlar as suas emoções em situações de risco. Este é um dos principais fatores que tornam o Kalani num surfista fora do comum, a capacidade que ele tem de nunca entrar em pânico em situações extremas.


Qual a reação de outros surfistas ao bodysurf?

A maioria dos surfistas demonstra um grande respeito e admiração pelo Bodysurf. É visto por muitos como uma arte do corpo. Requer um nível físico e técnico muito desenvolvido e é uma modalidade que tem vindo a crescer bastante ultimamente.

Há mais alguém em Portugal a fazer o que o kalani faz?

Sim, já existem vários bodysurfers muito bons em Portugal e existe também um circuito nacional muito competitivo, cada vez mais se vê um maior interesse pelo desporto. No entanto, na vertente das ondas grandes, penso que o Kalani é neste momento o bodysurfer mais extremo do mundo. O que ele faz requer uma enorme capacidade física e mental. Nadar em ondas de 10 a 15 metros sem o auxilio de prancha, colete ou mota de água não é para todos. Ele desafia os limites do ser humano no mar e é isso que impressiona a maior parte das pessoas quando assistem ao documentário. 



A modalidade era conhecida antes?

Sim, o bodysurf é uma modalidade que já é conhecida e praticada há muitos anos, especialmente nas zonas do Hawai e Califórnia



Quais as tuas expectativas para 2021?

2020 foi um ano com grandes desafios e especialmente imprevistos que foram acontecendo e que nos obrigaram a mudar tudo, em todas as áreas. Depois de uma grande estreia do documentário no cinema de São Jorge no festival “Surf at Lisbon”, arrecadando o prémio de melhor curta-metragem documental e de ter sido nomeado também para os Prémios Sophia, tudo virou no mês de Março… Tínhamos uma tour já programada para a Austrália, Nova Zelândia e Indonésia, outra no Brasil, e de repente foi tudo cancelado.

Passadas algumas semanas a pensar na melhor estratégia, optámos por colocar o filme nas plataformas de SVOD Apple+, iTunes, Amazon, Google Play, Vimeo-on-demand e Xbox. No mês de Junho ficou assim disponível o “Kalani - Gift From Heaven” e foi uma grande surpresa ver todo o entusiasmo das pessoas! O feedback foi muito positivo, o documentário teve uma grande notoriedade nos media de surf e noutros mais generalistas e surgiram novas propostas e oportunidades que vamos agarrar e começar já a desenvolver em 2021. Uma dessas oportunidades foi com a TAP e com a disponibilização do documentário a bordo dos aviões de longo curso. Vai ser excelente! 

Apesar de ainda haver muitas limitações e restrições para viajar, estamos motivados para começar a gravar um novo filme que vai ter muita ação e adrenalina! E, claro, a TAP irá acompanhar, do início ao fim, este nosso novo projeto! 

Como te sentes com o facto do filme estar a bordo dos nossos aviões?

É uma honra ter o meu primeiro documentário disponível nos aviões da TAP!

Ter o filme disponível para todos os passageiros poderem ver o nosso trabalho é sem dúvida um grande motivo de orgulho e realização, que nos vai motivar ainda mais a fazer filmes e a explorar o mundo.

O que gostarias que acontecesse de futuro, para além de ganhares um Oscar? 

Desde que comecei a fotografar e a filmar que o mar sempre foi o tema que mais me inspirou e me fez seguir carreira nesta área. Este documentário foi o resultado de vários anos que dediquei a filmar ondas, surf, bodyboard e bodysurf e gostaria que as pessoas tivessem mais consciência e preocupação com o meio ambiente, principalmente com o excesso de poluição de plástico e com a proteção de espécies em vias de extinção.

Este, a meu ver, é o “nosso” grande desafio neste momento, ao qual vou começar a dedicar-me cada vez mais e procurar utilizar os meus projetos para de certa forma ajudar e alertar as pessoas. Acho que é o mínimo que posso contribuir depois de tudo o que o mar já me proporcionou… De que serve um Oscar se daqui a uns anos não puder estar numa praia sem estar rodeado de lixo?