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Madeira em movimento

Puro, inspirador, introspetivo, é um paraíso no meio do atlântico. O arquipélago – constituído por duas ilhas habitadas e dois subarquipélagos que são reserva natural, selvagens e desertas – apresenta cenários idílicos, desde a floresta laurissilva, intocável pulmão, às praias e piscinas.

Há ainda uma agitação de cultura contemporânea que tudo acompanha. Aqui tudo cresce.

Madeira - Pura Magia

A Madeira tem aquela teimosia de querer dar sempre mais. Entre o mar e a serra, o ziguezaguear das estradas leva-nos sempre a bom porto. A Fajã dos Padres, na costa sul, é um lugar especial. Uma ilha dentro da ilha, junto a uma falésia com mais de 250 metros de altura. Para lá chegar, atravessa-se de teleférico um cenário de cortar a respiração. Com uma língua de terreno fértil e plano de 13 hectares (dos quais seis são cultivados), entramos num universo tropical à parte. Os corredores com bananais e vinhas são percorridos ao som do bater das ondas na praia de calhau. E diz-se que as melhores mangas e papaias saem daqui. Há ainda oito casas para alugar, que pertenciam aos padres franciscanos, que cultivavam vinha, e uma adega à beira do mar, onde se prova o vinho da casa.

A cana de açúcar, trazida para a Madeira em 1425 pelo príncipe D. Henrique, é outro dos principais ícones desta porção de terra no Atlântico. Em Porto da Cruz, a fábrica Engenhos do Norte testemunha o passado da produção. Equipada com maquinaria do século XIX que constitui um património museológico, esta viagem sensorial permite conhecer todo o processo de fabrico de aguardente de cana de açúcar e, no final, provar runs premiados e poncha, uma bebida tradicional feita de aguardente de cana--de-açúcar, açúcar e sumo de limão.

E há flora de todo o mundo, graças aos naturalistas que traziam sementes e pequenas plantas. No Jardim Botânico, na Quinta do Bom Sucesso, com uma vista soberba sobre o Funchal (o verde da natureza mistura-se com o azul do mar) estão cerca três mil espécies de vários pontos no mapa. A exuberância prolonga-se noutro éden, na capital do arquipélago: o jardim (século XIX) do Hotel Reid’s Palace, que antecipou a construção do hotel e tem evoluído ao longo dos anos com espécies trazidas pelos vários diretores que por lá passaram. Percorrê-lo é a sentir a história e a identidade genuína do hotel e da Madeira.

Água sã

Foi em Machico, na Costa Leste, que os navegadores portugueses João Gonçalves Zarco e Tristão Vaz Teixeira descobriram, em 1419, a ilha da Madeira. No entanto, hoje, da baía da cidade, vamos em busca do inesperado, a bordo do barco Scorpaena. Durante a viagem, explicam-nos que este mar guarda 29 cetáceos. E que rico ele se torna quando há golfinhos a protagonizar um espetáculo indiscritível em alto mar (o comum e o pintado são as duas espécies com que é possível interagir bem de perto neste passeio). A baleia-de-bryde ou a baleia-sardinheira são também encontros prováveis, assim como corvos marinhos, peixes voadores e gaivotas com que nos cruzámos.

Mas há mais regalos para os olhos: a Gruta dos Pombos é um lugar místico onde se quer abrandar para apreciar essa criação da natureza e sentir a água atingir os 19 graus. O ilhéu da Ponta de São Lourenço, pouco depois, demonstra as marcas da erosão. No topo, os caminhantes palmilham a vereda da reserva natural de origem vulcânica no meio do Atlântico.

Desta finisterra o olhar alcança no horizonte as Desertas, compostas pelo Ilhéu Chão, a Deserta Grande e o Bugio, e, quando o tempo ajuda, a ilha do Porto Santo.

A herança vulcânica do arquipélago reconhece-se também entre as pedras de basalto recortadas pelo mar, em Porto Moniz. O resultado do encontro abrupto entre a lava incandescente e o oceano traduz-se nas piscinas naturais da vila da Costa Norte da ilha, em que o mar entra naturalmente e traz consigo águas frescas e cristalinas. No Seixal, entre Porto Moniz e São Vicente, uma rosa dos ventos separa os mergulhos na piscina e os no mar que se enrola na areia negra.

A natureza foi igualmente generosa com Porto da Cruz, cujas praias são as ideais para o início da prática do surf (a Madeira apresenta ondas para quase todos os níveis da modalidade). São os instrutores da Calhau Surf School, pertencente ao Hotel Vila Bela, ali mesmo, que o asseguram.

Sujar as botas

Há lugares onde o nascer do sol é singular. Começa-se sempre bem o dia neste arquipélago da Macaronésia, a região biogeográfica que engloba ainda os Açores, Cabo Verde e as Canárias.

Nomeadamente na Ponta de São Lourenço, no extremo oposto da ilha, com o sol a brotar do ilhéu que se encontra em frente ao miradouro. “A Madeira proporciona-nos paisagens impressionantes”, diz o atleta Luís Fernandes, responsável pelos Madeira Ocean Trails. “É uma terapia natural descer estes trilhos. O que a Madeira oferece não encontramos em lado nenhum.”  Verdade, com esta vista ímpar, entre o mar e a serra (ambos são reserva natural), e o som das ondas a bater nas rochas, só mesmo aqui.

Um dos trilhos vai além das nuvens e liga o Pico do Areeiro ao Pico Ruivo, os pontos mais altos (entre os 1818 e os 1862 metros, respetivamente). Outro atravessa a mancha da Floresta Laurissilva, desde há duas décadas classificada como Património da Humanidade pela UNESCO, a grande razão pela qual a ilha está sempre verde. Ar mais puro não há.

E a melhor forma de conhecer este que é o coração da Madeira faz-se ao desbravar as levadas: rede de caminhos pedestres, devidamente assinalados, que acompanha os canais de irrigação construídos a partir do século XV pelos colonos e agricultores, de forma a trazer a água do Norte para o Sul. Depois da passagem pelos vales de Serra de Água, a primeira estação de água na ilha, conhecida pela poncha que se vende à beira da estrada, paragem na Encumeada, um dos vértices do Caminho do Pináculo e Folhadal, de 17 quilómetros, cujo canal tem produção elétrica e percorre as levadas da Serra e do Norte. A temperatura diminui e concluímos que a Madeira oferece uma palete de estações do ano num só dia.

Mas também obstáculos naturais que fazem as delícias dos praticantes de canyoning, desporto que junta caminhada, nado, rapel e salto. Dentro da Floresta Laurissilva descem-se ribeiras com cordas e o desafio torna-se único por entre a rica vegetação.

Linha da frente

A Madeira exige a reinvenção. Obriga ao desafio constante. “Criar na ilha traz muitas possibilidades, mas também limita”, ouvimos. É assim que muitos artistas e entusiastas locais combatem a inércia. Bebem do arquipélago, vão para fora para absorver ideias e voltam para adicionar sangue novo ao lugar que os viu nascer.

Aconteceu com Patrícia Pinto, dona de um atelier/loja onde alia as técnicas tradicionais ao pensamento e estilo contemporâneos para produzir peças únicas. A estilista mistura padrões influenciados pelo mar e pela terra, e inspira-se nas senhoras que trabalham no meio rural, “que têm uma forma específica de se vestir” para criar personagens com os seus vestidos. “Viver na ilha permite-nos olhar para as coisas com outra calma. Os circuitos vão-se sempre transformando".

Essa transformação é promovida por agentes como a Porta33, um espaço que há três décadas apresenta e une nativos ligados à arte contemporânea. Patrícia foi convidada pela associação cultural, como designer de moda, para uma exposição coletiva, Ilhéstico, ao longo do Funchal.

A eletricidade que fervilha na cidade estende-se à Rua de Santa Maria através do projeto Arte de Portas Abertas, uma iniciativa que transformou todo este corredor da zona velha e rejuvenesceu portas de casas, lojas abandonadas e espaços deteriorados com um conjunto de intervenções artísticas. Entre os participantes, está a ilustradora Bárbara Gil Eanes, autora do primeiro mural em grande escala da Madeira, na Avenida do Mar: um jogo entre o observador e o quadro, na porta de entrada da cidade dos navios e dos cruzeiros. “Tem a ver com o contexto de crescer numa ilha pequena”, explica. Outros trabalhos como A Baleia e A Cauda da Baleia, do argentino residente no Funchal, Marcos Milewski, e o lobo-marinho de Bordalo II, em Câmara de Lobos, acentuam o vínculo entre arquipélago e o oceano, associado à consciencialização ambiental, e a aposta na  democratização da arte urbana. 

Também junto ao mar, à beira do complexo balnear da Barreirinha, concentra-se um poço enérgico. E tudo gira à volta do Barreirinha Bar Café. É conhecido pelas famosas ponchas, de todas as formas e feitios, mas, acima de tudo, é lá que se conspira sobre a construção do festival de música Aleste. A tribo, liderada por Fábio Remesso, garante a vinda de artistas nacionais (e não só) do panorama alternativo e ainda disponibiliza um T1 acima do café destinado a residências artísticas. A oeste do Funchal, na Ponta do Sol, acontecem mais revoluções e, “para eles [artistas], estar aqui, é algo completamente diferente”, garante Nuno Barcelos, o programador dos Concertos L, na Estalagem Ponta do Sol, de julho a setembro. Deste hotel design, que olha para o oceano e para a vila, nasce um dos maiores berços culturais da Madeira. Além da Estalagem, gentes de vários pontos do planeta dispersam-se em residências pelo Centro Cultural John dos Passos (escritor americano de ascendência madeirense) ou pela Casa do Cacto.

Há ainda o Cine Sol, com 1933 inscrito na fachada, que acolhe o Madeira Micro Film Festival. Habituado também a divulgar as artes, o MUDAS, na Calheta, guarda uma coleção de arte contemporânea portuguesa com cerca de 700 peças e artistas que homenageiam a ilha. Em dezembro recebe o MADEIRADiG, festival de artes digitais e música eletrónica experimental.

Na base de tudo isto estão as artes tradicionais, como o embutido ou o vime, agora são  transportadas para patamares inovadores. Vera Morgado e Catarina Jesus, ágeis da cerâmica e do vime, respetivamente, cuja obra, entre outras, está exposta na Loja de Artesanato da Madeira, no Instituto do Vinho, Bordado e Artesanato, têm cumprido a missão de perpetuar a herança da sua terra.

Porto Santo - A ilha dourada

Na Vila Baleira, a capital e a única cidade de Porto Santo, a outra ilha habitada do arquipélago da Madeira, há um hino dedicado à descoberta em 1418 (um ano antes da Madeira), inscrito na parede de uma casa. “O teu sol é um encanto/ Tua praia a mais formosa” declara um dos versos de Teodoro Silva, cantado pelo funchalense Max, ali, à vista de todos. A homenagem obedece às ofertas deste destino, dos nove quilómetros de praia ao património geológico.

A cor dourada que se estende à beira de águas mornas e cristalinas tem propriedades mágicas.

Recolhidos no início do ano, os corais que se transformaram em areia são usados em tratamentos. Através de 41 graus de temperatura registados nesta terapia, o corpo absorve os minerais e as propriedades químicas proporcionados pelos banhos de areia do Porto Santo (o spa do hotel mais antigo da ilha é o lugar indicado para dar o mergulho).

É deste mar que a artesã Vera Menezes também se serve para recriar conchas e pedras que encontramos na Loja do Profeta. Nome auspicioso quando nos dizem que o Porto Santo, onde morou Cristóvão Colombo, é um lugar de lendas. “Somos chamados de profetas.” Se as gárgulas no exterior da igreja matriz espantam os maus espíritos, os catos funcionavam como “uma espécie de proteção aos piratas”

A ilha, que mede 11 por sete quilómetros, viveu muitas transformações em 18 milhões de anos. E o pouco impacto humano resulta na simplicidade que acaba por ser a sua maior beleza (a vegetação que cresce espontaneamente é usada na gastronomia e as plantas endémicas para fins medicinais).

As rugas da erosão e os 288 metros de altura (o ponto mais alto da parte ocidental) do Pico Ana Ferreira destacam-se. Este conjunto de colunas prismáticas, conhecido como Piano, causadas por atividades vulcânicas, junta-se a outros geossítios da ilha, como a Serra de Fora e Fonte da Areia, cujos fósseis marinhos e terrestres com milhares de anos dominam a paisagem.

A não perder!

Vistas

VÉU DA NOIVA
Miradouro na antiga estrada que liga São Vicente ao Seixal. Natureza intocada e uma cascata que lembra o véu de uma noiva.

PONTA DO PARGO
Zona da tensão entre o Sul e o Norte, onde se assiste ao pôr do sol e se encontra o farol mais visitado de Portugal.

CABO GIRÃO
É o cabo mais alto da Europa, a 580 metros do mar, com um miradouro plataforma suspenso em vidro.

Poncha

A MERCADORA
No Funchal, ao lado do Mercado dos Lavradores, esta velha mercearia é um clássico da poncha e  ainda hoje vende a “mistura de especiarias” do tempo do seu fundador.

A VENDA DO ANDRÉ
O espaço à beira da estrada, na Quinta Grande, serve a poncha à pescador, que junta açúcar, casca de limão e aguardente de cana e mel com sumo de limão ou maracujá.

por Manuel Simões   © up-tap inflight magazine


(Consulte o artigo na Revista in UP, edição de março de 2020)

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